Mealheiro #51: Deves mudar de trabalho?

Nem sempre o que parece é

Como seguimento ao último artigo, Como negociar o salário, decidi abordar outra temática relacionado com o trabalho: a mudança. Antes sequer de se chegar à fase de negociar um salário, é necessário considerar se a mudança é o melhor caminho.

Parece que, pelo mundo inteiro, vemos uma verdadeira onda de vontade de mudar de trabalho. Nos EUA até já lhe deram um nome: The Great Resignation. Seja devido a uma mudança de prioridades durante a pandemia ou simplesmente pelo desejo de mudar, muitas pessoas estão a deixar os seus empregos ou estão a pensar sair.

Mas como sabes se estás mesmo a precisar de uma mudança, ou se a tua vontade de mudar é passageira? Vamos lá tentar descobrir.


Devo sequer considerar ficar?

Se o trabalho te está a causar algum tipo de desgaste físico ou mental significativo, pode ser um sinal que tenhas que parar. Mas, antes de tomares uma decisão, deves ser brutalmente honesto contigo mesmo. “Quais são as minhas frustrações? Porque é que me sinto assim, o que é que realmente me levou a chegar a este ponto?”.

Perguntar “Porquê?” é o primeiro passo. Mas, raramente, a primeira resposta que encontras tende a ser a razão certa para o que está a acontecer. Por isso reflete bem, e tenta identificar a raíz do problema.

Como cheguei aqui?

Ao considerares os teus próximos passos, pode ser benéfico dares um passo atrás e tentar ver o que te trouxe até aqui: porque é que aceitaste este trabalho? Qual foi o teu caminho profissional até agora? Refletir sobre o seu passado pode-te ajudar a pôr as coisas em perspetiva e traçar um plano para o futuro.

Há quanto tempo me sinto assim?

Pode ser útil pensar sobre quando foi a última vez que te sentiste verdadeira e consistentemente feliz no trabalho. Se já foi há muito tempo, talvez seja hora de mudar. Se for algo mais recente, pode haver alguma razão escondida que te está a deixar assim. Por exemplo, podes estar a ter um esgotamento. Se for o caso, falar com alguém acima de ti pode ser uma opção - talvez tirar uns dias de férias te possa ajudar.

O que é que realmente quero fazer?

Aquela pergunta que raramente sabemos responder. Não é suficiente pensar sobre o que pode estar errado com o que fazes neste momento, qual é o teu emprego de sonho, ou até mesmo as tuas paixões. Deves ir um pouco mais além e pensar como desejas viver e que tipo de pessoa desejas ser. Os teus valores pessoais, aqueles que te guiam, também são importantes. E uma mudança de carreira deve ser algo maior do que simplesmente encontrar um trabalho gratificante.

Como seria um dia perfeito?

Imagina um dia perfeito de trabalho. Como seria, por exemplo, a manhã ideal? Este exercício pode-te ajudar de duas formas: perceber se o que fazes hoje é muito diferente do que imagines e como podes melhorar, ou então ajudar-te a alinhar as expectativas do teu próximo trabalho - e assim facilitar a tua procura.

O que é que dizem os meus familiares e amigos?

Falar com alguém ajuda sempre. Podes nem sempre ouvir a resposta que queres, mas certamente vai-te ajudar a destilar as tuas próprias ideias e encaminhar-te na direção certa. Por outro lado, também é difícil fazer grandes mudança na tua vida sem o apoio das pessoas mais próximas, especialmente quando há pressões financeiras.

O que é que estarei a pôr de parte se me despedir?

A mudança, inevitavelmente, significa compromisso. Ter claro aquilo que poderás estar a prescindir - amigos, benefícios, estabilidade, rotina - pode-te ajudar a perceber se estás realmente preparado para desistir.

O que é que poderei ganhar se me despedir?

Tendencialmente olhamos para os aspetos negativos de uma mudança e evitamos olhar para o lado mais positivo. Se estiveres no mesmo trabalho há muito tempo, é possível que tenhas perdido de vista o teu valor de mercado. A verdade é que talvez valhas muito mais do que aquilo que tu, ou a tua empresa, pensam.

Explorei todas as opções com o meu empregador?

Já pensaste se aquilo que procuras num novo trabalho poderá existir no teu trabalho atual? Experimenta falar com o teu chefe, e perceber se há algo que possas mudar - trabalho flexível, área diferente, horas reduzidas ou aumento salarial.

Aqui aplica-se também a lógica do ponto anterior. Se já estás na empresa há muito tempo, é normal que deixes de ver diferentes caminhos e oportunidades, porque já te encontras confortável.

Deveria sair devido a uma equipa de gestão tóxica?

Se estiveres numa empresa com um tamanho considerável, mudar de área operacional pode ser uma solução quando a pessoa, ou as pessoas, a quem respondes diretamente se tornam tóxicas. Poderá ser mais complicado em empresas pequenas.

Os recursos humanos poder-te-ão ajudar, embora esta opção possa ser um pouco controversa. Este departamento existe, acima de tudo, para proteger a empresa. Contudo, é uma questão de como abordas a situação que vai determinar o resultado.

Quando é que devo sair devido ao stress?

A resposta é fácil: quando o trabalho afeta negativamente, e de forma consistente, a tua qualidade de vida no geral - o teu sono, as tuas relações, o teu humor, a tua alimentação. E isto não se aplica só à tua saúde mental. A tua saúde física também é relevante, e deves prestar atenção a alterações fisiológicas.

É normal cair no erro de que é “só uma fase”, e de que vai passar mais cedo ou mais tarde. Se estás à espera que chegue o momento de rutura final, então já vai ser tarde demais. Mais vale prevenir do que remediar.

Será que as minhas expectativas são realistas?

“Se amas o que fazes, nunca vais trabalhar um dia na vida”. Tenho a certeza que já ouviste esta frase antes. Mas pode ser bastante enganadora, e levar-te a cair no erro de pensar que existe um emprego perfeito. Ter o teu próprio negócio, por exemplo, é romantizado com muita frequência, mas é algo que dá muito trabalho.

Pergunta a ti mesmo se estás preparado para uma mudança. Há um custo associado a trocar de emprego - conhecer uma nova equipa, curva de aprendizagem nova, novas ferramentas e novos clientes.

Se me preocupar menos com o trabalho, será que isso ajuda?

É fácil deixar que o trabalho controle a nossa vida. Aliás, é mais que comum. Hoje em dia, as nossas vidas são feitas e construídas à volta do trabalho, porque este ocupa a maior parte do nosso tempo. É por isso importante saber impor, e gerir, limites e tentar manter uma separação entre ambos.

Se o teu trabalho é a tua identidade, experimentar dar um passo atrás e reavaliar as tuas prioridades. Explora passatempos, passa mais tempo com família e amigos, desliga o telemóvel aos fins de semana. Diminui a tua dependência no trabalho, e vice-versa.

Será que é a altura certa?

Esta pergunta tem rasteira. Se realmente chegaste a um ponto em que não aguentas mais, é preciso mudar. Essa será a altura certa.

O que deves considerar é como é que o mercado de trabalho se encontra. Há oferta suficiente para encontrares algo numa janela de tempo curta o suficiente? Ou vais ter que esperar mais do que previas? Isto é importante para conseguires gerir as tuas expectativas o melhor possível. Porque a tua frustração só vai aumentar se pensares que o processo vai ser rápido, e depois acaba por não ser.

Porque é que não consigo decidir?

Nunca vai haver um momento certo. Não vai haver um dia em que as estrelas se vão alinhar, nem uma noite em que vais ter todas as opções analisadas. Nalgum momento vais ter que decidir e confiar na tua decisão. E lembra-te: não tomares uma decisão é uma decisão por si mesma.


Entendo que este artigo possa parecer um pouco generalista, e com pouca aplicação prática. Mas a verdade é que este assunto é bastante pessoal e limitado a cada um de nós. O objetivo não era dar-te uma fórmula mágica, mas sim deixar-te a pensar um pouco mais no assunto. Como podes ver, não é nada simples.


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