Mealheiro #44: 4 formas de gastar dinheiro

Não metas dinheiro em saco sem veres se tem buraco

Eu gosto de ciências comportamentais. Acho extremamente interessante tentar perceber porque é que as pessoas fazem o que fazem, porque é que por vezes somos completamente irracionais em situações que parecem perfeitamente “normais”, porque é que algumas pessoas preferem X, e outras Y.

Este tema é ainda mais curioso no espaço da economia, e das decisões que envolvem o nosso dinheiro. Escolhas que parecem simples, mas, lá no fundo, são bastante complexas, rodeiam-nos diariamente. Ir a pé, ou chamar um táxi? Comprar a marca branca do supermercado, ou a d’a moda? Pôr €5 de parte, ou comprar uma raspadinha? Aquilo que parece lógico para mim, não será assim tão preto no branco para a pessoa ao meu lado. Somos todos diferentes, e é uma lembrança constante de que o valor que damos às coisas é 100% subjetivo.


Recentemente deparei-me com um conceito relacionado com comportamento económico do qual gostei muito. Existem 4, e só 4, formas de gastar dinheiro:

  • Dinheiro teu, que gastas contigo

  • Dinheiro teu, que gastas com outras pessoas

  • Dinheiro de outras pessoas, que gastas contigo

  • Dinheiro de outras pessoas, que é gasto com outras pessoas

Esta ideia foi apresentada e detalhada por Milton Friedman no seu livro “Free to Choose”.


Porque é que isto é importante? Vamos ver as 4 formas com mais detalhe:

Quadrante 1: dinheiro teu, que gastas contigo

Aqui procuras o melhor valor possível para o teu dinheiro. Isso não significa melhor preço, pois preço e valor são coisas diferentes. É a diferença entre comprares uma ferramenta para arranjar algo num carro alugado, e comprar uma ferramenta para arranjar o teu carro. No primeiro caso, algo da loja dos 300 pode ser suficiente. No segundo, certamente vais procurar algo de maior qualidade, e, possivelmente, mais caro. Em ambos os casos, precisas de uma ferramenta. Ambas têm o mesmo objetivo. Ambas serão usadas pela mesma pessoa. No entanto, as duas compras diferem, pois a situação e o motivo da compra e as tuas expectativas são diferentes.

Quadrante 2: dinheiro teu, que gastas com outras pessoas

Aqui procuras bom valor pelo dinheiro. Não procuras maximizar o valor, pois nesse caso a solução é fácil: dás o dinheiro diretamente à outra pessoa. Nesta situação, há menos interesse da tua parte em fazer o esforço adicional para maximizar o valor. Procuras um valor que seja bom o suficiente. Uma boa forma de exemplificar: teres que comprar uma garrafa de vinho para oferecer de prenda de aniversário, ou comprares uma garrafa de vinho para te dares a ti como prenda de aniversário. São prendas são diferentes.

Quadrante 3: dinheiro de outras pessoas, que gastas contigo

Aqui, o preço deixa de ser uma grande preocupação, pois vais ser tua a beneficiar da compra, mas não vais ser tu a pagar pela compra. É por isso que, pelos vistos, é mais caro voar às segundas, e sextas-feiras do que às terças, quartas, quintas e sábados. As pessoas que estão a viajar em trabalho estão a gastar o dinheiro da empresa, com eles, e, por isso, são menos sensíveis ao preço - só querem chegar a casa para estar com as suas famílias. Os turistas, por outro lado, gastam horas e horas à procura dos voos mais baratos, e de outros descontos, para poderem maximizar o seu valor.

Quadrante 4: dinheiro de outras pessoas, que é gasto com outras pessoas

O governo cai neste “balde”. Isto ajuda a explicar porque é que achamos que o dinheiro público é gasto em projetos que nos parecem completamente ridículos, muitas das vezes. Quem toma as decisões nunca está a gastar o seu próprio dinheiro. E quando não se está a gastar o seu próprio dinheiro e não se beneficia desse mesmo gasto, então a sensibilidade para tirar o máximo de valor possível do mesmo é mínima. O que se pretende é algo livre de complicações, e não obter o melhor valor pelo dinheiro.

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Agora, da próxima vez que alguém te vier falar dos seus hábitos ou desejos de consumo, pensa em voz alta e diz "Isso é um gasto do quadrante X". Vais começar a perceber melhor as razões pelas quais as pessoas decidem gastar o seu dinheiro da forma como o fazem.


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