Mealheiro #36: O longo caminho para a prosperidade

Lembra-te do futuro e o futuro vai lembrar-se de ti

Quando pensamos, falamos, questionamos sobre investir há sempre um pressuposto referido vezes sem conta que é o conceito de “longo prazo”. Se queremos começar o caminho do investidor devemos, quase por definição, ter um horizonte de longo prazo, aguentando com resiliência as flutuações dos mercados, acreditando que as empresas ou fundos onde investimos são realmente “bons investimentos”. Até aqui tudo bem.

O que me proponho a desafiar neste artigo é o conceito que temos, de forma generalizada, de longo prazo. Durante a vida procuramos tomar boas decisões financeiras e por consequência fazer bons investimentos para que nós (ou aqueles que nos são imediatamente próximos) possamos tirar partido dos retornos num horizonte alargado (e.g. 5, 15, 25 ou mais anos), seja para aquisição de bens de elevado valor (e.g. casa) ou para desfrutar de uma reforma descansada. E se esse conceito de longo prazo for redutor? O que acontece quando o longo prazo se torna intergeracional? Será que deveríamos pensar a extra longo prazo?

Yuval Noah Harari, no livro Sapiens, sugere uma explicação para a nossa dificuldade enquanto seres humanos em nos preocuparmos com o longo prazo. A resposta está no instinto de sobrevivência animal que está enraizado no nosso comportamento e nos leva a priorizar sempre o imediatismo. Ou seja, temos uma dificuldade inata em priorizar o longo prazo quando confrontados com a necessidade de “sobreviver”, que nos dias de hoje significa coisas como: ter uma fonte de rendimento estável, ter uma carreira, sentir-se realizado, entre outros. Com a evolução da sociedade e da esperança média de vida, alguns de nós começaram a conseguir olhar para o longo prazo e dar-lhe prioridade, mas atenção porque existiram e existem pessoas que levam este conceito ao extremo. Este extremo é o fator intergeracional do longo prazo.

Muitos de nós já ouviram certamente falar de famílias influentes no mundo como os Rothschild ou os Rockefellers e de facto estas famílias têm uma conceção de longo prazo diferente do normal/tradicional. Estas famílias seguem um princípio fundacional de geração de riqueza, investimento e criação de um legado que é consecutivamente passado de geração em geração. É com este exemplo extremo que pretendo desafiar o conceito generalizado de “longo prazo” porque acredito que é especialmente crítico para as atuais gerações no mercado de trabalho, e futuras gerações, a compreensão de que a riqueza também pode, e deveria, ser gerada num horizonte que excede a nossa própria vida.

A capacidade de poupar e investir, deixando de lado nesta análise a criação de bons hábitos financeiros, em Portugal tem vindo a ser cada vez mais diminuta, os custos de vida sobem, mas os salários mantêm-se relativamente inalterados. É neste contexto que o fator intergeracional do longo prazo ganha especial importância. Devemos tomar decisões com consciência da sua longevidade no tempo, tanto para nós enquanto indivíduos como para os que nos sucedem e assim por diante. Pensar que somos finitos é doloroso portanto evitamos fazê-lo tanto quanto possível, mas acredito que quando falamos de investimento temos cada vez mais de deixar espaço nas nossas decisões para este legado intergeracional.

E tu? Já pensaste no que beneficiaste, direta ou indiretamente, dos investimentos (e.g. contas poupança, escolas) feitos pelos teus pais ou avós?

Já pensaste no legado que queres deixar e como lá chegar?


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